coceira no canto da manhã

para a Joice e para a Eleonora

também não é preciso saber se estamos felizes
temos um navio em cada mão
já é um costume o que era prodígio
em tê-los
o fato é que o casco se colide há tanto tempo contra a água (a mesma, dizemos) que um dia a manhã se torna filha de nossas mãos
ou o mar
ou o caminho impossível da linguagem despiu isto, e é tão, meu deus, como é claro, faz-nos pensar
como papai é um brincalhão, e engraçado, olha o que ele fez!
mas papai sempre esteve morto, e o papai a quem chamávamos Docéu nunca teve exatamente um cheiro característico ou masculino sobre o qual jamais precisássemos esforçar para crer
já mamãe cheira demasiadamente onde está.
Daí o caminho impossível do idioma (ainda a voz) despe isto, tão compreensível quanto fora claro e, meu deus, nossos navios se fundem com as mãos e a manhã torna-se filha dum estranho invisível
que despe-se para nós
Então nós cobrimos os nossos olhos com a pele para dormir
precisamente onde oscilam navios, grandes navios ou leves, como é claro
tanto quanto fora compreensível
e talvez apenas o pecado dalgumas palavras tenha nos acometido
subscrito no caminho impossível das carnes e dos ossos
precisamente onde os navios nunca tiveram pronde ir
e ficam salvos.
Para dormir.









«Espalha aí para o vento, Barnabé, para quem quiser escutar, que amanhã vou renascer – não tem nada a haver com ilusão de óptica nem com anúncio de ressurreição – simplesmente vou renascer, tão somente assim sem demais nem de menos, só porque me apetece. Sei que não é fácil não ter mãe nem madrinha nesse acontecimento de ressurreição improvisada, mas uma vez acontecido o acontecimento, não há mais remédio, Barnabé, apenas noticia individual, noticia de rodapé de jornal, de coração magoado, apenas anúncio sem importância devida, só importância de vida para quem apetece renascer de novo, amanhã, depois do amanhã, depois da semana onde o amanhã se reúne com regularidade – tão só renascer aqui acolá de aonde é de manhã de dia caducado, de lá ali em todo o lado, que coração dá sempre para enxertar em qualquer lugar desde que se cumpram as teimosias do homem que espera na estação da vida, nem que esteja apenas esperando o comboio na paragem de autocarro.*




Sublinha aí no vento, risca forte rabisca de traçado amotina as letras amplia o grande alçado, Barnabé, que amanhã vou renascer longe, num parto de chuva e sol dia de bruxa que come pão mole, que vou renascer de cinza negro amarelo e blue, mas longe, naquele lugar onde só santo nasce, Barnabé (...) longe onde homem não chega com noticia com fusão com traição, onde homem deixou de fazer contrição e deixou punhal da honra e glória pelo chão, onde só o deserto pisa – aí é um lugar de renascer, acredita Barnabé? Lugar onde homem acredita, acredita Barnabé?»
[...]


(Leonardo B.)

diálogos feitos há tanto tempo quanto não se há vontade de fazer


Décimo terceiro diálogo – olhamo-nos de imenso sono

Deixamos nosso idioma dormir por mais tempo
miras os meus olhos, tudo fora de teus olhos é o tempo, dentro deles secular um líquido estremece
é o único ruído interminável a caminhar, liberta umas escorregadias visões
deixamos nosso idioma escorregar enquanto dorme
O líquido convulso dentro dos teus olhos confunde as margens da pupila às da íris, tudo fora deles é o silêncio, dentro deles o ruído é largo como um campo recoberto por uma só cor
Eu entro enorme no planeta
e posso ser a água minando a lugar nenhum, e posso ser a pluma a sê-la deliberadamente, e posso ser mesmo o ruído estremecido de teus olhos: eu entro enorme no planeta
e confundem-se as margens da pupila dentro da íris
os teus olhos resvalam para os meus enquanto miras, enquanto a dentro estremeces o mar
tudo fora destes olhos são as margens confusas entre as pontas dos pêlos e o resto da vida:
o nosso idioma descansa
e é certo que jamais morreremos.




Vigésimo terceiro diálogo – a imagem da manada

És o animal guardando a madrugada. Sabes que és como a égua e como o peixe e uma lagarta impaciente
A manada que explode não espera por nada
o dia que nasce e o dia que deságua pelas veias do chão
e o chão
tudo vai-se aonde ir
como a lã das tuas horas
– o tempo que a ti é tangente vem horizontal
enrola-se em meu pescoço –
As manadas rebentam pelos campos remoçados a quilômetros daqui
e um grande objeto se move contra o corpo que rebenta
– quando se chocam os corpos um estrondo foge,
Corre para ti
O que resta dum incidente é a tua vida
e de tudo
há de sempre ser
a tua vida.



INSTRUÇÕES PARA LAVAR ROUPA

“pois nada te abandona nem tu ao sono”
Ana Cristina Cesar

"também é para o Julio Cortazar, sim"
Leandro Jorge

Os membros órgãos e tecidos, de tecido, tuas roupas, serão permeados recobertos e envoltos pela água – fazem referência a teu corpo. Porque estou à beirada de um rio e faz-te referência – ao teu curso. O lençol de tão largo, este lençol bondoso, refere-se à tua vida, deita-se e por debaixo de sua derme fronteiriça, como de ti, deita-se o rio a correr, que também a tuas roupas, como a ti, está a vestir. As tuas roupas correm, guardo com os olhos seu caminho sobre as águas e já vão à lonjura horizontal de minhas vistas, sem que eu possa agora então lhes prestar as recomendações. Instalo-me lateral ao rio (as margens como as tuas), meus olhos seguem ao mesmo sentido de sua marcha e eu aguardo, ainda que não se possa vir a correnteza ao contrário caminho, aguardo as tuas que se voltem, indo-se ao norte, a tornar pelo sul, ainda que me corram fartos os anos à mesma direção, voltar-me-ão pelas costas, vindas do oriente, como também tu estás, assim como eterna estás-me a vir.




[quinto poema da série A Mulher da Manhã ou da Noite, dedicada a Carla Diacov]

Trecho inacabado dum quarqué.


eu peço que desculpem-me por tamanha distração, novamente tropecei e já há tanto venho tropeçando deveras e topando este pé esquerdo e este direito com o dedão e com os dedos menores. Desculpem-me, senhores, ter tropeçado naquela montanha enorme dia desses, entendam, sou eu que tenho vivido um pleno estado de graça. Desculpem-me tropeçar na montanha, tenho vivido num estado pleno de graça.
Continue, senhora!
Ah, eu estou a repetir, sim? Estou sempre a repetir as coisas que eu já falava. Sabem, nunca nada me falta, então eu estou excedendo, porque está tão bom e assim fica tão bom, que eu acabo me excedendo. Digo, estou além da conta, entendam, desculpem-me, eu tropeço tantas vezes que algumas vezes há de ser num mesmo lugar, entendem?, desta vez foi uma metáfora, eu fiz mesmo uma metáfora.
Pobrezinha...
É, pobrezinha... A sua irmã vem enlouquecendo, Pedro. Podes ver?
Sim, sim... E já não a aguardávamos? Ora, mãe, mãezinha tão boa... Se aqui já estamos, já chutávamos sem querer tantas montanhas enormes antes dela, ela que é a caçula, sempre tão nova, uma novilha, agora vem a enlouquecer, vindo para junto de nós.
Não, Pedro, a tua irmã é uma doente! E está a desculpar-se publicamente porque andou tropeçando em montanhas por esses dias! O que querem de mim, Pedro?
Deixa a irmãzinha, mãezinha. Ela está na tv, ela sempre quis estar lá. E agora ela está, e está a desculpar-se, tão boazinha. Ela precisa saber que não há mal algum nisso, que as pessoas tendem a tropeçar, e outra coisa é que as montanhas foram feitas também para isso, é fato que elas estão ali irremovíveis à passagem e, então...
Desliga, por favor, a tv, Pedro. Vamos ao sono, sim?

***

Mamãe sempre aprontou-se cedo para dormir. Naquela noite nós desligamos a tv e servimo-nos duma última xícara de chá para dormir. Mamãe gosta da carqueja e nós tomamos a carqueja e fomos dormir. Há seis anos mamãe feriu-se com a faca da carne num acidente com o meu chinelo, por eu calçar muitos números além dos pezinhos dela, e ela tropeçar usando um chinelo tão grande – a faca entrou-lhe pelo antebraço e danificou uns quatro tendões, de forma que ela deixou de freqüentar a cozinha e eu venho aprendendo a deixá-la como faria mamãe. Com o tempo, mamãe foi deixando de freqüentar os outros cômodos e, de um ano a cá, ela ou está no quarto ou está na sala. Então nós tivemos que pedir uma comadre e um pinico à senhorita Magda, que visita-nos toda manhã, trazendo um bolo de fubá – sempre este. 

repara, pois, que envelhece a cidade




































Pois que anda o mundo desse jeito
hei de logo construir pelo telhado
outra casa que se entalhe em meu peito
hei de logo reformar o meu regaço

Pois que corre o mundo todo pelas sendas
aos cantos do buço ao largo dos olhos
foi há pouco envergaram estas paragens
daqui o mapa embarrigado deixou vias
tortas. Canais de firme estada caudalosa
perderam-se das cercas escorridas frente às margens.
Hás de ver se reparares desta altura
onde cedem cotovelos e raízes
ao regalo dessa torta novidade
ufanou a barra ao chão roçando da bandeira
levada a prumo na envergadura de seu mastro
há mais convexo nos pomos e nas quinas
e no céu côncavo da boca há mais dunas
as esquinas, pois, são mais esquinas
as colunas, pois, são mais colunas
se reparares, pois, verás meu dorso
de primária criatura em parábola

Pois que o mundo enveredou-se desde a sola
se por meus pés ele começa há de entortar-se
se estou velha há este mundo de entortar-se
repara, mais, pelas veredas de meu dorso
se cabe o mundo a meu vértice esgueirar-se!
Pois que o mundo emaranhou-se em meus tapetes
repara, pois, se anda o mundo doutro jeito
repara, pois, toda essa gente em minhas cavas
e suas vozes coloridas em meus dentes
outra aurora em meus dentes, outra aurora
repara, pois, que a essas horas fico tola
que de tão velha fico tola a essas horas

Pois que inteiro anda o mundo desse jeito
hei de logo construir pelo telhado
mais outras vilas que se entalhem em meu peito
hei de logo reformar o meu regaço.

Драть драпы и драпать





Margarida, para o fundo, Margarida
vamos para o fundo
nossas peles frágeis deixam-nos flutuar caso o resto do mar... Para o fundo, Margarida
sabes mesmo que nossa amiga Anna já se foi
e ela vai de uma maneira horizontal, sabes de tudo porque os olhos dela são negros e são grandes e são tão estrangeiros e ela se vai, como o primeiro a acentuado e aberto de seu nome.
A nossa amiga Anna já se foi
com a primavera que cantara, negra como seus olhos
e o primeiro a de seu nome.
Vamos para o fundo, Margarida, aioraipornós
caso o resto do mar...








Драть драпы и драпать



Sétimo diálogo – a imagem errada


Essas coisas que vejo eu já não consigo
pôr-lhes a ver
já nada os posso, podem-me não conseguir também
mas tu
tu tens os meus olhos em teu rosto
aquilo que víamos, amor, não conseguimos mostrar, não podemos já nada aos justos amigos e mesmo os anjos de guarda olham-nos doutro jeito, ou nós, ou nós nem mais assim podemos
vamos calar, calemo-nos
deixemos a louça por si a secar, cuidemos da casa e dos bichos
e iremos de quatro pelo resto dos dias
viu que somos enormes? E somos mesmo invencíveis, irão dizer Ah!, mas são mesmo enormes!, e se não disserem será aquilo, será aquele problema da visão, porque aquilo que ainda agora víamos, com isso já não podemos, devemos calar
e iremos cumprindo pelo resto dos dias
viu que somos uma graça? E somos mesmo capazes de amar até que toda imagem se arrebente.
Não, não é nada disso.
O poema nasceu errado e não é nada disso. Está mal escrito e está errado, como nasceu.
Eu deveria ter dito apenas que não se tratava de um poema. Então eu preciso explicar que não se trata mesmo de um poema. Eu devia avisar que estou pedindo alguma ajuda, alguma espécie ingênua e engraçada de ajuda. Eu não sei mesmo o que é que eu devo estar querendo, mas está em ti. Tudo está em ti. Absolutamente tudo está em ti.
Então traz a mim algum objeto ou... Amor, algo qualquer, traz algo qual quer que seja Algo, eu preciso, amor, e desconheço. Mas está em ti. Sim,
tudo está em ti.
Agora sim. Penso que podemos descansar.
Agora sim – não se trata de um poema – não penses que é um poema.

Rampa para aleijados

Decretamos o estado de falência das mãos
Decretamos o estado de falência dos olhos
Decretamos o estado de falência
múltipla
dos anos

TARANTELAS / início para as levas

tarantela entre o armário e a cozinha
para a Rachel

Vejo-te, vens lenta e
pesadamente debruço os olhos onde envergas. Debruço toda a vida; depois tu recolhes uma a uma as meias coloridas duma infância inda hoje e minha e tua; extenso rio de cabelo sobre os tempos; depois recolhes gota a gota as águas doloridas da minha cabeça.
Depois trocas o lugar das coisas
todas
e vais a ir com facilidade. Carregada em teus próprios braços. E com facilidade.



tarantela entre a janela e a área externa
para o Carlos Eduardo

Verdadeiramente nunca existiram os abismos
os enormíssimos de pedra e as colunas crespas dos céus e aquilo a que chamarem abismo normalmente não existe. Um homem mergulha da janela para a área externa para sempre e diz vozes provisoriamente perenes, ou isso desde que as ouviu. Este homem aponta o dedo para as coisas e diz para sempre
este homem aponta os olhos para as coisas e diz misericórdia
e diz I'm sorry, I'm so sorry
Ele bate as asas com tamanha virilidade além da possível violência cristã, além mar, e diz vamos, querida, para o ninho.



tarantela entre dois cômodos novos
para a Marina (a Ilze)


Queres da pluma um muro, ou dum muro a pluma, há plumas de fato e o que fazes às coisas deixando-as a ser o que és, tu deixas as plumas desatentas sobre os solos, há gentes de fato e objetos, há móveis enormes, mas plumas, de fato. E procuras-te na sala onde inundas, tu deixas testemunhas como o que tu fazes com as mãos e te perdes velozmente entre os nomes. Há móveis e escombros e gentes parecidos com as tuas mãos. Há tu, mas plumas.



tarantela entre o cabideiro e a lua
para o Ismael

Umas porções de terra ou de água ou de homens são repetitivas e incansáveis, umas após as outras as coisas nascem para derramar. Em verdade, nada quer se colidir, e as velhas fazem bolos com espantosa naturalidade, e é tão fácil amar. As senhoras com nomes de esperança.
O menino apaixona-se por minutos, corre, apaixona-se, corre, interminável, interminável, e traz duas cestas grandinhas com os corações para transplante, dizendo eu não sei mesmo se acredito, mas disseram que era isto
e estão absolutamente todos a salvo, e os que já estavam, e ficam vivos
e o menino não sabe mesmo o que dizem. Apaixona-se, interminável.



tarantela entre a gaveta e o bairro
para a Ingrid

Uma pessoa veemente em forma de frase prolongada carrega sinais dos bairros para os outros bairros, leva automóveis para a casa, tem um barbante enorme de coisas a fazer.
O espelho com sinais das cidades e travesseiros camuflados
o espelho aturdido volta-se para si. O espelho dela carregado faz cidades. E ela carrega os bairros. Não será preciso segui-la, leva-os a força, à superfície e o ar.
Entardece para que deságue, e os olhos com um cais, e sua alma atraca.



tarantela entre dois quartos parecidos
para o Tarcísio

O que queres, o que dizes, o que estás a trazer e a simplicidade com que chegam-te as coisas ao redor. Um nome a cada, um ruído indefectível chama-te a brincar, e tu erras, e tu fazes questão, e esforças-te para errar, um nome a cada, balanças a cabeça e explodes um ruído indefectível, um nome a cada
que giram com velocidade
as paragens e os paços espessos com animais domésticos dormindo
infinitos tipos de talheres sobre a mesa baixa, primitiva, um nome a cada
e tu conheceste todas as coisas antes de chamar.



tarantela entre o quintal e a curva
para o Otto

Aos molhos os mares se arrebentam em silêncio
e tu cerras os olhos para alguém descansar.





Desenho em nanquim de Carla Diacov


.

Bacia das águas

"Eu disse: 'Vamos, mas com sossego.' Só aí é que aconteceu que nós esquecemos de combinar, em antes, quem era que esperava e quem era que tirava..."
(João Guimarães Rosa, em O Burrinho Pedrês) 

I
Mergulhas. Mergulhamos
e vamos
À direção mesma dos meninos pequenos
e dos grandes, mais os animais e talheres seguidos de objetos mais leves
por causa dos metais
e vamos. Mergulhas
à direção predita
e vais
mergulhas prazente com essas setas paternais
como a que dize-nos - respira, menina
respira para mim.


"É, mas a pior de todas é a arrancada do gado triste, querendo a querência... Boi apaixonado, que desamana, vira fera... Saudade em boi, eu acho que ainda dói mais do que na gente..." 
(João Guimarães Rosa, em O Burrinho Pedrês)


II
Há cães raivosos com o medo d'água. Levam-nos para cima. Perguntas
- Nos dias como estão hoje, tem desses medos?
- Há cães para tudo. - eu digo
- Ainda hoje?
Desde que deram de chamar ao Cão pelo nome de cachorro.





O parapeito antes das mãos antes dos braços

para o Gabriel Leitão

O cultivo da cana, o cultivo do algodão
o dos grãos, e o gado
há algum vento (sempre) que eriça e flana
os corpos que descansam sem os olhos sobre si
A cana, o algodão e os grãos, e dum boi
o silêncio parcimonioso, inesgotável.
O linho tem pressa, o álcool e os automóveis
têm pressa. Demasiado os filhos estão crescendo.
Contudo lavas as mãos para jantar, afunda-as exageradamente
na toalha invertebrada, feita para tanto
uma coisa feita para isso, outra para aquilo,
tu te sentas e afundas exageradamente os teus olhos
na continuidade da janela (o fazes todas as noites e nunca fizeste)
a margem do parapeito para o mundo
de lá há qualquer coisa (sempre) que nasce e vigora
qual coisa quer que nasça, e vigora
sabes com benevolência o grande número dessas coisas
e já há alguns anos que dizes é irrefutável
vigora irrefutável - sabes - há pouquíssimos anos diante delas
dizes é irrefutável
só que acenas o cenho para a árvore da manhã
que move-te os braços
e os teus olhos entram fidalgos pela janela, pairam sobre a mesa
Tens falado pouco. Dizes apenas é quente
dizes está bom, dizes está longe, dizes parece-me azul
dizes é frio, é áspero, tem muito líquido, ficou lento
dizes venta, e venta muito, é irrefutável
Tu te lavas e te deitas e tens o silêncio do boi
parcimonioso, inesgotável
Tu aguardas com benevolência
o cultivo da cana, do algodão, o dos grãos e o gado
Obrigado. Dizes
obrigado.



Caravaggio

Os seus dentes brancos ou os seus dentes claros

"[...] e obcecada pelos caracóis, tanto que não se mexeu ao primeiro grito de Nenê. Todos corriam e ela estava sobre os caracóis como se  não tivesse ouvido o novo grito sufocado de Nenê, os socos de Luis na porta da biblioteca [...]" (Julio Cortázar, em Bestiário)


Seus dentes claros cegaram-me
seus dentes claros cegaram-me e morderam-me
os olhos
Um tigre no escuro, três minutos para a valsa, três minutos antes do tigre
a biblioteca tão alta, as janelas, a valsa cândida das meninas claras e de todas as coisas
que são claras
Depois o tigre no escuro, as mãos desatam-se, as janelas retiraram-se com o vento, as meninas têm tantos filhos no salão ao lado, e eu fiquei para ver o farfalhar das asas no voar dos livros e das janelas - os médios, duros, os de bolso pequeninhos e um grande atlas. Mais as quatro esbeltas janelas -
mas a porta, que ficara, não sabendo voar, cochilava de tão velha, de tão alta, de tão gasta
e fiquei no centro sobre o chão
da biblioteca
que já não era apropriada pelo nome
e o tigre no escuro, o tigre óbvio e impoluto, a transição certeira dos meus doze
aos noventa anos
e eu estive cos noventa
e olhava-me aquele pote alaranjado dos anos, olhava-me com os seus dentes
os seus dentes claros que cegaram-me. Que cegaram-me e morderam-me
os olhos.


"Tudo menor, mais cristal e rosa,  sem o tigre então, com Dom Nicanor menos grisalho, apenas três anos atrás, Nino um sapo, Nino um peixe, e as mãos de Rema que davam desejos de chorar e senti-las eternamente em sua cabeça, em uma carícia quase de morte e de baunilha com creme, as duas melhores coisas da vida." (Julio Cortázar, em Bestiário)

Os sais porque durmo

para o Stanley

Queres as mãos, ter mais que estas e estender
as tuas mãos, tens mais que uma, mais que duas, queres para estender
e tens as mãos estiradas por onde correm as torrentes
e os óleos da manhã
As tuas mãos têm os tamanhos até aqui, e eu durmo
eu durmo e tu entras pela porta de feltro com os dedos
entre os fios, vens desde o longe, esticas-te pelas pontas porque durmo a este sítio
e trazes os sais
e depois tu recolhes as mãos com os movimentos de recolheres, e os teus braços viajam para trás como animais apropriados para isto, e os teus braços recolhem-se para trás, para trás, e os teus braços conhecem as cidades
e depois tu farás o movimento de esticar
e depois tu farás o de recolher, e eu durmo
e depois moto perpétuo passarinho, tu te voltas a vir pelo feltro
a trazeres os sais
porque durmo.



Modigliani

Variações sobre o que dizes

NICHOS / ESTAMPAS PARA SELOS - 2

segue junto ao escrito a estampa da cortina que daria para a janela que daria para o jardim de boninas que daria para a janela da casa ao lado, onde estarias tu, a espiar a hora desta
retalhada carta em enchimentos para boneca.

(Carla Diacov)



caderno dos sonhos absurdos – sonhos com selos


I
Consecutivos na parede são três selos
o primeiro estriado fez-te pensar, sobre o Atlântico, venta-se muito sobre um oceano, porque a cal demonstrava vento na parede e tu já vias o aviãozinho contra o ar
sobre o Atlântico estriado
o primeiro selo trazia-te
a porção quadrilátera, invisível, do mar.
O segundo e o terceiro selos eram o aviãozinho e o carteiro, propriamente,
supondo-se que o carteiro era quem esperava-te ao contrário
do itinerário proposto
tu chegas depois, dias depois das tuas mãos, das que já cuidava o carteiro, esperando-te chegar. Tu chegavas ao encontro das mãos e o carteiro olhava-te clemente para que abrisses
com zelo os olhos
a boca e o peito para as mãos
com o zelo abrires então o apanhado abaixo dos selos, levares à casa e sentares-te sobre a estampa estriada da cadeira
e que inteira com o zelo tu te abras
e que não te acordes ainda,
espera:
tu te afastas das mãos quando depositas
os ventos oceano acima, as estrias sobre o Atlântico.
Quando te acordas, miúda
uma gota do teu suor oceânico
e à frente do suor o horizonte
e o horizonte quilômetros
para dentro da tua fronte.

II
Desde que parti nós dormimos
estamos a dormir onde vamos
mas tu por vezes te moves e esticas, range o estrado, o estalo das madeiras irremovíveis das pernas da cama, fixados no ar para o sempre. E tu fazes o que queres quando dormes, e o que queres vem a ser sempre aquilo que já fazes, antes ainda que assim o pudesses, que tu vens a merecer de tanta merecendência daquilo que queres – daí mostro-te as belezas que explodem de tua boca quando tudo e qualquer dizes, e tu te ris, ris com a abertura animalesca da boca, e as coisas maiores eu vejo: que um selo tens em cada dente
de cada federação, dum estado, um rancho
alimentos irremovíveis então do que dizes – quando tudo e qualquer dizes.

III
o muro coberto de selos
próximo da esquina que atravessas
trazes ao redor uns e outros torvelinhos
seus de companhia. Tudo perde-se dos nomes sacudido pelos teus companheiros sobre as ruas. O muro estampado de selos rodopia com um torvelinho atrás de ti, então uma erupção de papeizinhos de dentro do rodopio, os selos pairam arrancados do muro que gira, os selos direcionam-se para ti, como tudo, e tu estás estampada dos selos, coberta, e tens os braços e as pernas tão compridos e os teus olhos, teus comprimentos com capacidades para comportar todos os países
para a correspondência. Carregas assim a geografia. Tens tão comprida a tua língua, então capaz de dedicar-se a cada selo
e lamber
depois teus dedos enormes
ainda a cada selo, alto os levam para cima, pressionas
com o indicador
que tu pregas ao céu


IV
Viajávamos na pequena caixa
pelada, a nada inscrita. E ao nada nunca chegamos ou nem não paramos de ir. Viajamos com certa estupidez
tal qual a esperança
dos animais na caixinha ao lado. Os selos para dentro da caixa, que tu percorres com os dedos para demorar. E é certo que demorar é que vamos
ou nem nunca pudemos partir
e é certo que a demorar estamos
e já não se pára, pois, de se ir.

Jogo de chá sobre esteira

Homens precisam nascer
precisam morrer e trotar sobre esteiras
e são demasiados homens. Fazem o barro para procriar, pais de jarros e panelas, fazem ao barro da bolsa de suas barrigas, um homem não foge ao ventre que o concebeu, são magros, de barro. Todos os homens são magros, apressados. E fazem jogo de chá e fazem forros para a mesa. Sobre a mesa apóiam-se os cotovelos e o descanso dos olhos quando percorrem recontando as flores estampadas pelo tecido.  Há tantas xícaras para tantos homens. E mesas em menor quantidade, quadrúpedes como cães.
O chá duma senhora está repleto
há demasiadas tardes de chá para um mesmo sol tão jovem
há um sol para cada dia, e tão jovem
o sol precisa nascer
o sol precisa morrer
e são demasiados nomes para ele. Um para cada homem que o chame. A esteira é sobre onde o homem trota, e sua vida, tudo se avança e torna, tudo a nunca ter descanso, ou o descanso a se mover, ainda que durante o chá da tarde pareçamos habitar o centro da esteira. Tudo deságua pelas superfícies e se arrebenta nas margens, segue para seu torno, porque a mesa é mesmo um quadrúpede austero, mas o jogo de chá sobre as flores
as xícaras como as aves
os homens como as aves
seus olhos de porcelana suas almas de barro.



















[quarto poema da série A Mulher da Manhã ou da Noite, dedicada a Carla Diacov]

Variações sobre o que dizes





Nichos / Um Bordado Assim e Assim


deito-te sobre o caderno de sonhos
vejo um teu medo passado
próximo da respiração de medo ofegante, digo, de medo e que dizer-te com medo, ofega ao mundo que vejo, um terrível instante,
donde a concórdia? donde a concórdia, meu bem? Estou a plena borda do dia do nicho a nascer
morrendo desse medo.
(Carla Diacov)



caderno dos sonhos curtos e medrosos

I
Um punhado de grãos e as mãos
e a boca medrosa a rir
ocupamos a rua de nozes e castanhas menores, sobrepondo seu asfalto, duma margem à outra, de infinitos punhados a rua, duma esquina à outra
enchemo-la
caminhamos para trás trinta passos
à espera dum automóvel
ao rés da vinda
ansiávamos com medo, ríamos, uma boca enorme
e duas rindo
ao que nada vinha, essa débil ocorrência do deserto que nasce pelo hálito da rua
à volta tudo prosseguia
e nem um vizinho por detrás qualquer de janela a partilhar desta hora trêmula, iminência, tu vestias-me do medo e ríamos
ao que nada vinha
que dirão nossos pais? – desta rua aquém
desses automóveis

II
noutro sonho
os teus olhos gigantes inflavam e tomavam
o terminal rodoviário. Homenzinhos espremidos contra seus pastéis manobravam os corpos para ingeri-los. Outro tentava levar a mão ao bolso, recolhia níqueis com dificuldade.
Riem apreensivos e esperam que beijemo-nos às pressas
beijamo-nos com um excesso de saliva que pingava sobre teu pé esquerdo e o bico do meu pé direito, beijamo-nos e babamo-nos de medo, como fazem sapientes os cães filhotes
mas tu foste àquela hora como que a girafa dentro do torvelinho sem envergar
além de teus olhos crescentes, parecias com a hora boa de receber-me
torvelinhos, torvelinhos, medrosos, são gases dentro do peito
e eu respirei para partir
eu, como eflúvio de teu corpo, a partir
como dum sítio pela inédita vez me arrancasse
depois o ônibus ia mover-se arranhando os teus olhos. Mas tu foste àquela necessidade como que uma grande rocha secular com dois seios a que chamamos de mãe.
E ainda és. Espécie de girafa e de mãe com dois grandes olhos com dois grandes seios

III
então nasceu o medo e ainda menino estivera a rodear entre veleiros, homens do mar e os bichos d’água. Acordamos ao centro duma ilha exposta pela janela. Minha mãe ao vão da porta aquecia as mãos e pedia-nos
que algo fizéssemos para comer

IV
este cavalo explode a correr sobre a várzea assustada pelo possível limiar de destampar-se do solo, este cavalo corre parecendo com mula, parecendo com burro, parecendo com pássaro como os pássaros que arrebentam contra seu peito, este cavalo arrebenta-se contra o meu peito, este cavalo vem sendo um bom homem, vem sendo um bom filho, vem sendo um bom medo, este cavalo corre, este cavalo corre, este cavalo há de morrer quando perguntarem-lhe o nome

a imagem à mesa e a imagem do céu

Quarto diálogo – a imagem à mesa

mastiga vagarosa
quando comeres
deixa que tua saliva brotando por baixo da língua recubra teu alimento e que abrace-o por fim. Os teus olhos voltam-se para dentro e aguardam que tudo possa estar resolvido nas paragens do teu corpo, enquanto que comes. Depois voltam-se para fora – quando engoles. Tu nem podes dar conta dos teus olhos, há coisas demais a fazer, e tu a fazeres, como mais uma vez explodir o alimento entre os dentes. Deixa a saliva correr pela boca no vagar duma serpente que
recobre
o corpo dum carneiro com seu corpo
e acaricia-o, porque ele está a temer, ela reza-o, irão render-se em pouco, assim tem sido a vida, há pelo menos alguns séculos
teus olhos voltaram-se para fora, tu engoles e volta-se
para fora
já deixaste de pensar numa serpente com um carneiro, há demais coisas a fazer, há pelo menos alguns séculos.

Imaginai um carneiro a render-se sem o medo
e depois tudo que corre iria a correr, e o que pinga iria a pingar, e o que embala iria a embalar, depois do carneiro, enquanto que a serpente tem os olhos voltados para dentro, e está já a descansar, estão, ela e o carneiro.

Até que acabe o teu alimento
e tu te voltas para as coisas que vão a continuar
imaginai as horas e os varais, os varais e as roupas e a sua forma passível de esperar pela vida
há alguns séculos pelo menos.











Quinto diálogo – a imagem do céu
  
Vejo que clareia o céu acima
outra nuvem que dissolve na boca azul e pelo sol vai transpassada
e que tudo são alimentos das horas
a boca azul sobre cabeças, e os membros que funcionam pelo bem,
há um deus a quem agradeço
pois agora estou a lembrar-me
de que tu percebeste certa nuvem com formato duma boca de pessoa que se ria, docemente, e então fotografaste a nuvem
lembro-me agora porque faz-se o instante em que vejo:
percebo-me da tua voz, que tem cores, reparaste?, tu guardas na voz determinadas cores agitadas pela língua: são três
uma de quando chama-me bonina
duas outras que misturas quando lanças aos céus os teus dizeres
e agradeces – há um deus para isto

Depois tudo são alimentos coloridos
assim também os somos
dissolvemos na boca azul agradecida
e depois vamos
pelo sol vamos transpassadas
bem aventurados alimentos das horas.








Na página Por Outros, três poemas a escorrimento de Nina Rizzi. Os três foram arrancados sumarentamente da casa de onde a Nina...: ellenismos. Ainda não satisfeita, há um outro que escorre além do três.

terceiro diálogo - a padaria em determinado número de horas

Depois duns três segundos é que percebíamos que os dois carros na esquina
Fulana! Bateu! Viu?
E um outro homem ainda depois duns mais dois segundos levantou-se. Bateu, viram?
Estava tudo se demorando por cerca duns três segundos, ou duns mais dois ainda pra que alguém se levantasse. Vê? Por Deus, como é que se demora a esquina chegar até aqui! E todos continuam sentados, à exceção deste homem, que parecia-nos não mais nunca ir a se sentar e nem ir a se ir para perto da batida ou para casa, e parecia-nos que tinha no homem aquela permanência dos automóveis de mesma cor.
Mas senta, homem! E ele sentou-se. Era permanente como a grade televisiva e a espera dentro da tarde, como os automóveis de mesma cor. Ele sentou-se: gente, vocês viram que bateu?
Uma coisa perigosa...
É. Tinha razão. Tanta, que contivemos certo medo pela vida, tal a infância, voltamo-nos à infância e dela saímos, porque contivemos o medo como homens. Eu como mulher, e tu, também. E contivemos a vida como duas mulheres, tu abaixando o escopo dos olhos sobre o balcão, e eu
Querida, sabes que tenho a observar toda a manhã a tua idade? Mas a minha idade? Sim, pois, querida, pelas tuas maneiras de ouvir: pareces já vir dumas encarnações. Quantas delas? Olha, chegou a polícia antes da ambulância. Mas acho que a ambulância nem vem precisar, estão de pé.
E nuns dois segundos o homem de permanência levantou-se: viram? Chegou a polícia.
Tu continuavas a parecer com um monte de encarnações, sendo que guardava a impressão de acontecer a qualquer momento de me virar o rosto e contar-me segredo qualquer deste mundo. Que o mundo tem o formato dum fruto que conhecemos? – deixei escapar pela voz a pergunta que vinha ao pensamento. Tu perguntaste: quê? Eu fingia que era uma repetição: põe os olhos para o balcão, o homem de pé parece que nunca mais vai a se sentar. E tu rias. Mas punhas os olhos para o balcão.
Depois os contidos sob o vidro do balcão começaram a se desperceber, amiúde, em segundos, e em segundos amiúde os cotovelos e contidos sobre o vidro do balcão não se mais percebiam, os homens e contidos por dentro da padaria e os segundos da esquina até ali iam a perder a característica de serem percebidos. Tu e os homens e eu e nada a percebermos. Porque o sol recostou delicado a sua pelugem sobre as costas do telhado, e os nossos olhos ficavam como dois pares de bons filhos deste mundo,
alguma gratidão acerca daquilo que o sol fazia roçava-nos como uma coberta rasteira
no acaso em que a mão dum senhor (havia a possibilidade daquele senhor já ter se acostumado com as manhãs) tocara a tua mão, e a tua mão nem fora tocada como normalmente se tocam as mãos, sendo que ela ficara desapercebida pela mão do velho, sendo que enchia-se por dentro e por fora duma existência parecida com a incomunicabilidade do sonho, e também o teu corpo e os teus olhos, e tu me deixavas escorrer a matéria dum sonho, e tudo ia sendo encharcado em delicadeza pelo sol.
Por três segundos a mão do velho afastou-se
pedia desculpa, terna desculpa de quando se toca uma outra mão no acaso
mas os nossos ouvidos estiveram dormentes recheados lentamente, parte pela matéria onírica de que tu me infestavas, parte pela pelugem do sol que escorria pelo telhado.
Então o bendito espírito da preguiça desprendeu-se da cal pelas paredes e aproximou-se, bendito, tocando as nossas cabeças com as mãos, como se as protegesse, benzesse, concedendo-nos certa esperança comprida, gorda, demorada, e tombou manso sobre nossas colunas,
a eternidade, e tu parecias com dois grandes braços pelos quais ela esticava-se
amiúde, por um a um dos dias da tua vida
A padaria, tudo não mais existia, porque vinha a tarde, as tuas mãos e os homens, os cotovelos sobre o vidro e o vidro do balcão, porque vinha a tarde, e mesmo o sol já não o era, meu Deus!, já era outro.
Levantamo-nos a ir, tu para onde te foste, eu para onde me ia.
E o homem permanente trocara de turno com o rapaz de mochila que apressava-se. Porque o uniforme dum balconista há de ser três peças bem vestidas e um par neutro de calçados. A lacuna do homem permanente fora preenchida por um rapaz de juventude, de peito fugaz, e a lacuna do homem permanente desfazia-se pela tarde, morria perecível, eternizava de manhã.
E foram dois segundos até que o velho anterior de mãos distraídas saudasse o rapaz: teve batida na esquina. Mais cedo. Viu?
Perigoso...
E o jovem conteve um certo medo pela vida. O senhor vê?, assim de manhã... Alguém está morto? O velho riu-se, cuidadoso: não sei, filho, mas estavam todos de pé. Deus queira que bem.

Donde as naus destas tuas mãos

I
A minha alma transportou-se para longe, para longe
onde pequena uma asa move lenta, move veloz
ouve-se como a uma nau, para longe, para longe
vê-se como a uma nau para o sempre, para o sempre
e repete-se vagarosa, repete veloz, como o bicho
que pode agora estar pela morte, que pode estar por nascer
lento, veloz,
Este ruído não se deixa dividir, ouve, a vida
o tempo transporta-se para o som, para o som
onde a arquitetura dos olhos descansa
transpassada pela nau, que a tudo tateia, de tudo se vai
para o sempre, para o longe,
onde anuncia um vaga-lume que há o céu sobre o monte
donde a tudo pode-se ver, recoberto
pelos céus, sobre um monte. Vagoroso, vagaroso
que pode se estar a girar, que pode se estar vivo
como então o bicho, agora pela morte, ou a nascer,
II
que fizeste da tua palavra o meu intrépido nascimento.
O que descansa da nau é o seu nome, como o teu nome
a encharcar-me lenta a alma pelas beiras
- amolece-me ainda o temperamento das águas
e duma interminável água pequenina
que inscreve-se sobre o chão
como a alma e o cio que sobrevivem
duma primeira palavra. Vagarosa, veloz -
Trazes ao entorno da voz
uma espécie materna de bacia, cujas moles paredes
de cor indefinível, pacientemente me recolhem
na posição fetal de meu espírito.
Vê, olha o meu antecoro sobre este campo -
o que a mim tu trouxeste é impassível de dor,
mais pelo seu repouso que pelo sacro entusiasmo,
e inscreve-se pelos solos como a água que não se termina
vagaroso, veloz, e recobre-se pelos céus
sob os pés do monte, donde o tudo pode-se ver
e instala-se lento, instala-se grande
donde as naus destas tuas mãos
transportam-me para o sempre, transportam-me
para o longe.

















[segundo poema da série A Mulher da Manhã ou da Noite, dedicada a Carla Diacov]