Por Outros




Nina Rizzi




chaos
nina rizzi

de onde vim – belezas
e destroços, suam intensamente

tudo existe, dorme. até
que doa o útero, em desfio

gozam a doer profundamente, verdade
no rasgar das manhãs.





alquimia pra infidelidade
nina rizzi

domitilla lhe doía. seu nome, domitilla, domitilla.
(um nome é só um nome. como isabel, fátima, cida.)

domitilla, se repetia, os olhos grudados 
no papel amassado e o endereço. os dedos se tremendo
um embrulho como ventoenvenganovoglia.

pinzón no mar doce e gama nas índias, na estante
cinco ou seis livros, um poema no papel 
amassado, como souvenir. mapa.


lhe doía o naufrágio. terra
à vista, menir. os olhos ruínas, ó, domitilla.




sonatina cearense
nina rizzi


me atraem essas florezinhas brancas, a gente sopra e voam
mil pedacinhos brancos de ciúme.


a senhora mombaça do sertão central, tão velhinha,
acampada sob a lona preta, com seus olhos lacrimejantes,
lispectorianos, conclui:


- minina, minha fía, deixa essas frô cai nus zóim naum que cega, visse.


(Nina Rizzi - em http://ellenismos.blogspot.com/
ainda sobre nina, foi ela quem escreveu:

buendía

nina rizzi

enric tinha uns olhos tristes. um colombiano,
outro iraniano. a mulher que mo tirou, os pôs.
assim me minto - c'os mesmos olhos.)


Por cduxa, da Casa


O dias luminosos crescem. Nas sombras das copas. O vento branco é só uma memória. Esculpida nos troncos. A vida torna-se visível em danças de cor e som.
No lago. Peixes alimentam-se de larvas de insectos. Jeremias. Espreguiça-se no cimo do muro. Sininho. Dá saltos na tentativa de apanhar uma libelinha.
As imagens semeadas nos canteiros das palavras despontam viçosas. Planto espanta-ladrões-de-palavras nos canteiros. Sininho pára. Jeremias atento observa cada passo. (testemunhas incrédulas ). Eu sorrio. Sossego os meus companheiros. O meu espanta-ladrões-de-palavras tem genes de druidas seculares.

(Texto gentilmente deixado a transportar de A Casa da Rua dos Douradores até aqui, por cduxa)



Por Carla Diacov



O QUE FOR MÓVEL ENTRE NÓS

O foco e o ponto de vista da mesinha central.
disse a mim;
É vago.
Tentamos encontrar uma imagem
se abrindo.
O diabo se contenta com pouco.
ela diz;
quero é o mundo. E repete; Euqueroéomundoseabrindoentrenós.


Carla Diacov




Por Marina Rosário



Minha infância foi quente e úmida.
Foi forçada de instantes gigantes de dias de verão colhidos por mão enorme.
           
A minha não, a minha mão era pequena e alheia.
Mais alheios que ela só eram os ventiladores
Que giravam, alegres.
E a minha tristeza, que hoje é tão minha,
Era só dos ventiladores.

Eu abria minha mão para recebê-los
E o vento que parecia tocar minha palma molhada
Forjava mundos de vapor
Mares primitivos, sem navios.
Os portos ficavam todos na ponta da minha língua seca
E me bastava saber que eles estavam ali,
Mesmo que não existissem navios
Nem muito menos portos.

Hoje tenho navios, portos, mares de água.
E a minha mão, que era tão minha,
Só sabe desenhar, cansada
Navios, portos, mares de água.


Marina Rosário.



Por Gabriel Leitão

Da delicadeza

Talvez a brutalidade do século XX seja o fator responsável pela suprema delicadeza de nosso tempo. Tal brutalidade é hoje incompreensível. A palavra evoca uma vaga e rarefeita idéia que, embora não mais comunique efetivamente uma experiência, ainda cumpre bem o seu papel nos discursos de lamúria e de escândalo. Se antes de sua exaustiva repetição tal idéia foi de fato compreensível um dia, ou se pelo menos sua palavra se prestava a indicar a positividade de uma ocorrência nefasta, esse decerto não é mais o caso para as gerações contemporâneas, que não mais são capazes de extrair dela qualquer sentido, pois o mundo se tornou delicadíssimo, a despeito ou por causa de sua história recente e tão supostamente brutal.
Delicadeza que se expressa na afetada reivindicação por respeito e na virtualmente ilimitada capacidade de compreensão de uma suposta alteridade. O mundo se tornou de fato tão delicado que desapareceram como num piscar de olhos os diversos códigos de delicadeza que as gerações mais antigas cultivaram a um preço e esforço que mal conseguiríamos conceber. Hoje é delicado ser informal. Se tudo mergulhou na aura da informalidade — da linguagem aos sentimentos, passando pelos gestos e gostos, vestuário e compromissos — não é exatamente por termos nos embrutecido, mas por termos nos tornado delicados de fato, num sentido que causaria náuseas a homens que iam de cartola ao teatro e mulheres que usavam espartilho. Pois então a delicadeza era um modo possível de comportamento, e não uma propriedade das pessoas. O sentido de códigos de delicadeza era a explicitação não de uma natureza simples e obviamente delicada, mas da cultivada capacidade de agir delicadamente. Somente nesse sentido a delicadeza poderia aparecer como algo gracioso, pois tornada essencial dificilmente se pode diferenciá-la da mera frouxidão.
Não precisamos mais agir delicadamente porque nos tornamos delicados de fato. É como se os lábios não mais precisassem sorrir graciosamente porque todo o resto já sorri estupidificado. Com mais um pouquinho de dedicação a humanidade realizará em breve o supremo ato de delicadeza, e dará uma generosa gorjeta aos seus carrascos.



(Gabriel Leitão - http://aeternus.blogspot.com/)





Por Otto M.

BLUES FOR GABE

E ela que nem gostava de se vestir de amarelo. Quando o dia se recolhe, vem aquela quietude e, naqueles minutos cambaleantes e assustadores que precedem o adormecer, é impossível não sentir que o rio abre seus braços vertiginosamente, marulhando baixinho e grave, dividindo-se em dois; e as duas correntes, a do leste e do oeste, seguem para o sul, solitárias e plácidas, como se preparassem-se para banhar as pernas pudicas de moçoilas a lavarem em suas tábuas. Vão através de tortuosos vales e declives, irrigando terras áridas, inférteis e porosas, encontrando-se com outras águas, de outras fontes, de outras naturezas; descobrindo, encobrindo e deformando as ruínas que já viram tantos outros rios passarem. Até mesmo mares. Os pequenos caudais agora vão perdendo a força no meio de seus percursos por onde trafegam barquinhos a motor em cujos conveses, à luz dos lampiões, resplandecem as faces desencantadas das meninas ribeirinhas do Zé Mauro que se vestem da cor da flor do Ipê para serem devidamente distinguidas: servidoras do rio, prostitutas e nada mais. Os regatos perpassam lentos pelos pés desta bucólica montanha adunca, inundando as crateras feridas e desviando-se dos montículos de uma terra que tardiamente adolesce; vão se enroscando na vegetação imperfeita em ambos os lados, penetrando e fazendo transbordar este pântano avermelhado sob a luz do entardecer para, enfim, reencontrarem-se após tamanha jornada, tornando-se novamente um só fluxo de águas piscosas de melancolia e amansadas pelos ventos da conformação e do silêncio; e, mesmo assim, ele seguirá fraco, porém persistente, até pender, em forma de uma acabadiça e bolhante cachoeira, na boca do abismo de meu queixo, hesitando entre saltar ou ser secado pela fronha florida do travesseiro.

... E nossas vozes lamuriosas se misturavam na escuridão, cantando o blues febril dos escravos que suam suas almas ao escavar as terras deste maldito senhorio. Éramos trabalhadores malemolentes a serviço do... Desse God damm Love. Nunca vimos a cara dele, mas bem que sentimos suas chicotadas e achincalhes. 

Tom Waits, aquele que engoliu o rabecão, me faz lembrar que o mundo permanece girando, mas, ultimamente, a cada volta que ele dá, quando chega à noite, eu me encontro na mesma curva, na mesma cama, vendo os mesmos rios de lágrimas se cruzarem à luz do abajur, lembrando daquela outra cama, onde ela, nua, iluminada pelo fulgor de velinhas aromáticas, dizia: “Não gosto de me vestir de amarelo”, como se não soubesse que, naquele mesmo instante, o fogo já a vestia assim. 

Hoje, só queria clamar “Gabe” enquanto todos calam e nem mesmo as gaitas farfalham. Só queria saber se é ela mesma que me espia pelo espelho do outro lado da escuridão. Só queria adorar sua face de boneca, adormecida e palpitante em sonhos. Só queria lhe desejar boa-noite. Só queria falar essas coisinhas simples e, então, dormir ou morrer, tanto faz. Mas a chuva volta a estourar sobre meu telhado. Uma tempestade viril rompe o som de minha voz.

Nu e irracional, subitamente me estendo na parede rústica, sentindo o frio dos tijolos perfurar meu peito quente e suado, executando o balé da solidão. Meu olhar de piedade e cansaço se recolhe lentamente e sinto em mim uma leve ausência, uma desolação suave como um arrepio na nuca, um ímpeto que, como o sopro que leva longe a pena do travesseiro, me joga aos braços dela que hoje vibra entre as ondas etéreas, escondida atrás da luz e do tempo, pulsando em meus neurônios e mediando os conflitos entre os átomos. Viagem leve e fugaz. "Mas não há ninguém. Nunca houve." - Diz a vidraça, salpicada de gotas cintilantes. 

Antes de depositar meu porto seguro e todas minhas esperanças dentro de um baú e enterrá-lo no fundo das poças celestiais de seus olhinhos, acho que nunca disse a ela, mas costumava ser uma dessas pessoas que preferiram a solidão e a confortante sensação de sentir-se miserável, a chorar por si com uma guitarra no braço e um copo de Bourbon na mão, consolando-me com as palavras que somente eu (e todos aqueles negros safados) saberia proferir para mim contra os males que eu mesmo me permitia. Era fácil viver nessa época. Mas sou sobra confusa do puritanismo e minhas roupas ainda rescendiam a coral de igreja aos domingos: pisei em sua alma e pedi perdão a Deus. Éramos tão parecidos, né? Praticamente iguais. Respirei tanto sua vida que a mesma se impregnou em meus ossos e se tornou a minha própria de modo que, hoje, sou uma dessas pessoas que... Nem sequer pode olhar-se no espelho, pois, diante do reflexo, o que sobra de mim mesmo é somente um par de riachos: regatos de dor onde me batizo diariamente para ter meus pecados contra ela expiados. 

Sabe, desde que Gabe se foi, não raro, minha mente projeta um sonho: há sempre, de início, uma situação tenebrosa como, sei lá, uma morte. E, finalmente, quando a tormenta se vai, no caminho para casa, fumando pall mall com mãos trêmulas e cantando spirituals, numa longa estrada de terra margeada por canaviais, me lembro que há, em alguma das estantes de livros de minha velha biblioteca, um pequeno livro de capa dura e folhas envelhecidas; uma espécie de promessa de livro sagrado, dono de uma beleza imensurável, como se tudo de mais lindo e perfeito já escrito pelo homem tivesse sido liquefeito, misturado num cadinho e de lá nascesse a tinta que grafaria tais páginas carcomidas. O sonho é tão real que toda vez acordo com a certeza de que o livro estará lá e que me bastará ler um de seus pequenos capítulos para sentir meu corpo ser enxugado, minhas culpas redimidas e meus olhos revividos. Mas ele não está - O livro perfeito é o amor que se vai na calada da noite sem deixar vestígios, platonizando-se ao som do canto funéreo dos mochos - Não está porque, no sonho, ele tinha em sua capa cor de ovo, em letras garrafais, o nome “Gabe”... Lamentavelmente (e novamente) ela, que não gostava de se vestir de amarelo.


.
Iara, que é prece, me deu presente:

Kika por mim

Por mim, Kika menina Carolina
é a poesia em êxtase, aço e suspiro
Não!! Nada ali é doce, sonhos de menina
Os sonhos, ela dilacera em versos densos
Os sonhos menina Carolina ficam no entre
no vão
vazios preenchidos com fúria
Fica é a fúria de Carolina menina Kika
O Rio ela recebe entre os dentes
A mordida de cada dia
O pão de cada palavra
Por aqui, as linhas se ressentem
Menina kika Carolina não vem?
Não
Virá?
Sempre está!
Não vejo.
Só os olhos pra ver essa menina não servem. Sinta!
A fúria de Carolina
Kika de palavras
Uma capeta de seda...





(Iara Fernandes)

 


Lucas Puntel Carrasco, que gosto muito, que é sem título:

certa vez fui palhaço, ri do risco
porém, mesmo pequeno, envelheci
herdei um velho elefante de circo
todo orgulhoso de ser rei pra si

no meu planeta possuí um arbusto
o planeta girava + depressa
os dias lá duravam 1 minuto
era 1 mês que duravam as conversas
                  
mesmo que a gente um dia envelheça
e não se fale + do trapezista
o mundo gira e tudo recomeça

o elefante carrega um circo e o rei
seu reino é onde longe alcança a vista
quando voltou a si, quase chorei
(Lucas Puntel Carrasco

Leonardo B. doutrinou:

Provisório Renascer
Para a Carolina Caetano

Tenho em mim a pedra
Provisória,
Anónima e rasurada
Por mil anos, em
Mil mãos contritas!
Escritas em sulco na pedra,
Estão as idades,
Que não lembro, datas que
Nem conheci;
Lavradas em cinzel,
Gravadas de memória,
Empireo socalco,
Trago,
Não por mim,
Mas por respeito à mão
Pura, que me soube esgravatar
Dentro, um rio
No coração que trago a descoberto.

Tenho em mim o tabuleiro
Da densa areia, traços
E rabiscos duma tempestade
Serenada
Pelos passos do vedor,
Uma geografia desconhecida,
Para os que nem quiseram
Ou souberam como
Imaginar, que
De todos, o único caminho do mundo,
Quatro os ventos de cristal
Quatro os rios sem nascente
Quatro os gritos do feto
Que conheceu agora a luz,
E de todos eles,
Como tinta permanente,
Tenho em mim, na semente
Da pedra,
A linha e elemento,
Branda palavra
De que me alimento;
Tenho, a ponte assente
No ribeiro que verte o
Momento,
Quase templo,
Mas nunca porta dourada;
Aquele que aguardo,
Aquele que já se prepara,
Estará noutra morada!

Tenho em mim,
O coração onde se tece
A pedra,
O tempo sem termo,
Uma pequena parte
De todas as palavras.
Parte,
Das souberam habitar
Na água que guarda o tempo,
Liquido amniótico,
Tinta árida,
Que se esconde no poema
- E por consequência,
Nesta pedra que em mim
O tempo me traga,
E no corpo finito,
Que me toma e
Me resguarda,
Só,

Existo, e endureço o tempo!

(Leonardo B. Colmeal Velho, 20 de Abril)

E eu ainda disse:

Então o verbo vingou na água
Salgada
Foi o homem de então que virou barco
Vingava o verbo nas entranhas
Salgadas
Foi o Atlântico de então que virou braço.


Betina... Betina é isso aqui:

BIBLIOGRAFIA

Meto-me já para dentro
Casaco/fecho/pensamento

Tudo o que dizia/disse/direi
Amanhã também não serei

Ando em pleno vento contra
Jamais eu/obra estarei pronta

Divagando sobre o obituário
Morrer é adorar ao calendário

Sevícias/vícios/vísceras servi
No prato das tristezas, engoli...

(Betina Moraes)


Marina me disse bem dito:

Ontem sonhei com seus olhos
tive tanto medo que achei que ia morrer
Ontem sonhei com seus olhos
tive tanto medo que achei que estava vivendo.

(Marina Rosário)
.


O Vídeo Poema de Adriana Versiani, que não consegui carregar aqui:



Márcia, querida, Shoo. Suas palavras:
Palavras
de palavra que é
não diz.
Não precisam
a palavra
nada.
Ela
por si só
são só palavras.
Por a+b não escuto mais.
Deixo as palavras ao vento.
Se cai como pena
só leve a palavra.
Se cai como bigorna
da palavra não passa.
 
(Márcia Shoo)
 
Otto, que é Otto, nos escreveu:

Sou mulher por mim mesma, sem seio primogênito, com útero na alma.
Não derivo de costelas, sou a própria.
Ana criou-se em mim, Rita fez-se comigo, Tereza foi-se de mim.
Cruzes em peitos se ergueram, terços incontáveis fizeram-se em samba por novenas, dezenas delas.
Severinos choraram e desaguaram em encruzilhadas pelo amor que não vos dei por não tê-lo.
Amo por profissão.
Amo!
Bélgicas já conheci.
Franças conheço.
“Minas não há mais”.
Goiânia,
Quero!
Canadas...
São Paulos...
Terezinas...
Méxicos...
Mim!

(Otto Barros)



O Diogo me trouxe:

Coexistência
Vivo em face de minhas três faces
Sugo para mim, o que das outras faces pertence.
E em face de tal
As várias hipóteses, ao fim
Parecem uma só,
E a sós cada uma persiste.
De um tempo tão longe,
Um prazer tão distante,
Faces amantes
Existem em mim.
Ora, será loucura?
Ou mera reciprocidade?
Não, são meros corpos,
Faces,
Em sincrônica coexistência.

(Diogo Silva Chagas)




O meu irmão disse assim:

Sou filho de minha mãe e de meu pai
Irmão de minhas irmãs.
Amor de meu amor conjugal
Sobrinho de meus tios e tias
Neto de meus avós
Amigo dos que prezo
Colega dos que convivo
Membro da minoria
E o único ser habitante de mim
Ao contrário de minha irmã,
Que tem gentes em si.
Amanhã mudo tudo que escrevo
E ontem sempre será como se fosse ontem mesmo

(Fabrício S. Caetano)

E eu disse pra ele:

Ter-te seria muita pretensão
Ter-me seria mais pretensão ainda
Então, porque mais leve e justo,
devo que tenha-me
assim como têm os nomes aos objetos
antes de os terem aos nomes
assim como deveríamos ter um ao outro
assim como não temos
devemos que me tenha
assim como as mãos à prece
assim como deve a mim o mundo que me prometeu
quando eu criança
assim como a São Paulo se ia em bicicleta amarela
Tenha a mim
como nunca teve um irmão a uma vida
Mas como tem um dono à própria vida
Como, antes de minha,
o dono da minha vida.


(Aqui, o espaço para o que for de vocês. Me enviem, publicamos, comentamos, germinamos e esperamos nascer. Depois, comamos!)