Quando logo o sinal iniciou, todos rebentaram pelo pátio em disparada. Cairo perdeu-se por algum motivo seu. Nos portões com zeladores outros pais esperavam, avós esperavam em casa, outros pratos esperavam sobre a mesa. Todos aqueles filhos, netos e irmãos mais novos já entendiam mais de suas pernas que Cairo. Perdera-se porque atentava demais para baixo, e os sapatinhos coloridos, os cadarços, a alegria - principalmente a alegria quando tinha pés - eram demasiado reais e eram rápidos. Tão rápidos como não poderia a realidade senão o seu oposto. As cores saltavam e se cruzavam entre a poeira, trocando umas com as outras de sapato. Porque era às dezoito horas, ficava existindo ali uma aurora descabida e violenta até a altura dos joelhos. Uma aurora que vinha por trás de Cairo, no meio do pátio, passava por suas pernas, e seguia, seguia, de uma esteira. Cairo queria não deixar que as cores saltassem, trocassem, brincassem, de lugar. Sortia a atenção dos seus olhos e nariz, para lado e outro a tamanhas velocidades dos rodopios, mas estivera parado, postado, como o objeto alheio de aurora. Depois que as cores resvalaram pelo portão, correndo às solas dos zeladores, Cairo ficou no chão, entornado. Arfava o cheiro dos meninos que findaram. Deitou a cabeça sobre suas patas brancas, de curto pêlo, suspirou dos olhos o focinho molhado e desatenciou. Desatenciou porque não cabia em seu instinto que as cores lhe aprumassem. Cairo então esticou-se de preguiça por algum motivo seu.
Na página "Por Outros", um valioso e acolhido poema de Leonardo B.
(Courbet)
Fui preferida pelas dinâmicas do mundo:
sou cegamente feliz quando espreguiço.
Os pertences do mundo me apropriam
pra eu ser filha de santos.
Minha mãe leciona pedras
e tem superfície passível de ocasiões
Meu pai tem quilômetros nos olhos
e é formado em coisas.